Vegetarianismo, anemia e deficiência de ferro

O post de hoje vai tirar todas as dúvidas sobre a adoção de uma dieta vegetariana e o desenvolvimento de anemia por carência de ferro. Vamos nessa?

O que é anemia?

A anemia é uma condição em que a concentração dos níveis de hemoglobina no sangue encontra-se abaixo do normal. E o que é esse normal? Para os laboratórios, 12 a 16 g/dL em pessoas do sexo feminino e 13 a 17 g/dL no sexo masculino. Para a Organização Mundial da Saúde, há anemia quando a hemoglobina se encontra abaixo de 11 g/dL.

O que uma pessoa com anemia sente?

Quando a hemoglobina está baixa é sinal de que a nossa medula óssea não está conseguindo produzir as hemácias (células vermelhas) corretamente. E as hemácias são as células responsáveis por transportar o oxigênio para todo o organismo. Assim, a redução das hemácias leva a uma menor oxigenação dos tecidos, causando sintomas como fadiga, palidez cutânea e de mucosas, falta de ar, sonolência, tonturas, redução da concentração e atenção, pressão baixa, entre outros.

Como saber se a anemia é por falta de ferro

Embora anemia seja um termo único para quando os níveis de hemoglobina estão baixos, há diversos tipos de anemia, com diversas causas, e é necessário analisar outros marcadores sanguíneos para fazer o diagnóstico diferencial.

Quando o quadro de anemia é por deficiência de ferro, encontramos também no hemograma um VCM (volume corpuscular médio) e um HCM (hemoglobina corpuscular média) baixos. Na prática isso equivale dizer que é uma anemia microcítica e hipocrômica, ou seja, as hemácias têm um tamanho reduzido e pouca pigmentação, devido à redução da hemoglobina. Esse é um quadro típico de anemia por deficiência de ferro (ferropriva).

Nem sempre a anemia ferropriva acontece porque não consumimos todo o ferro que precisamos na alimentação. Ela pode acontecer também por aumento das perdas de ferro no sangue (menstrual ou em hemorragias, por exemplo), nas fezes (má absorção), ou por alguma condição genética em que o organismo não é capaz de incorporar bem o ferro às células vermelhas (talassemia, hemoglobinopatias, sideroblástica).

Deficiência de ferro sem anemia: ferritina baixa

Também existem condições em que os parâmetros de hemoglobina, VCM e HCM no sangue estão normais, mas o estoque de ferro no organismo está baixo, a famosa ferritina baixa. Nesse caso, o que a pessoa está ingerindo de ferro via alimentação está sendo suficiente apenas para manter as atividades mais fundamentais, como a produção de células vermelhas. Porém, não sobra ferro para formar reservas. Isso é bem comum em mulheres vegetarianas que menstruam.

A ferritina baixa por si só já pode levar ao aparecimento de alguns dos sintomas iniciais da anemia, como o enfraquecimento dos fios de cabelo, das unhas, fadiga, desânimo. Muitos pacientes acabam convivendo com essa condição crônica de uma ferritina mais baixa sem perceber que não estão com sua total capacidade física e mental.

Embora os valores de referência dos laboratórios variem de 10 a 254 ng/mL para o sexo feminino e 22 a 280 ng/mL para o sexo masculino, não é raro observamos na prática clínica os sintomas citados com valores de ferritina menores que 50 ng/mL.

Ferritina alta não é sinônimo de bons estoques de ferro

A ferritina é uma proteína que armazena ferro em alguns tecidos corporais e é uma das “proteínas de fase aguda” do organismo. Em resposta a infecções por microrganismos, traumatismos e inflamações agudas e até crônicas (em quadros de obesidade ou síndrome metabólica, por exemplo) ela pode se elevar no sangue.

Nesse caso o indivíduo pode não ter um bom estoque de ferro ou até já estar num quadro de anemia e mesmo assim apresentar uma ferritina alta. Por isso, devemos avaliar todos os exames relacionados ao metabolismo do ferro (hemograma, ferritina, saturação de transferrina, proteína C-reativa), analisar a dieta habitual e o quadro clínico do paciente como um todo.

O que fazer se a ferritina ou a hemoglobina estiverem baixas? Consigo aumentar a ferritina ou a hemoglobina somente com a alimentação?

Bom, aí você dosou a ferritina ou a hemoglobina e uma delas ou as duas deram baixas. A primeira coisa a fazer: seu médico ou nutricionista deve considerar a reposição de ferro via suplemento. Isso mesmo. Na maioria dos casos não adianta apenas corrigir a ingestão de ferro via dieta. É preciso sair rapidamente do quadro da deficiência, então a suplementação é a forma mais eficaz e prioritária nesse momento.

E qual suplemento de ferro usar?

Existem alguns tipos de suplementação de ferro, via oral ou endovenosa, que é prescrita pelo médico em casos mais graves. Para casos leves, a suplementação pela via oral funciona bem.

Sulfato ferroso é a forma usualmente prescrita e ofertada em serviços públicos de saúde, mas, para quem puder arcar com uma suplementação no particular, a forma quelada de ferro é mais interessante, pois interage menos com outros componentes da dieta e tende a ter uma melhor absorção.

Para quem sente desconforto gástrico ou náuseas logo após a tomada do suplemento, é possível também mandar manipular com cápsulas gastrorresistentes, que se abrem somente no intestino delgado, aliviando esse desconforto gerado no estômago.

Ressalto que em hipótese alguma você deve suplementar por conta própria.  A dosagem e a forma de suplementação devem sempre ser prescritas pelo médico ou nutricionista e os exames que avaliam o metabolismo do ferro devem ser monitorados periodicamente para ajustar ou retirar a suplementação.

Devo voltar a comer carne para corrigir a deficiência de ferro?

Sabemos que a carne vermelha é a principal fonte de ferro na alimentação, e contém um ferro do tipo heme, que sofre menos interferência de outros componentes da dieta, tendo uma boa absorção.

Em dietas vegetarianas é possível obter maiores quantidades de ferro nas leguminosas (feijões, lentilha, grão de bico, ervilha, soja e derivados, amendoim), em alguns cereais integrais (aveia, quinoa, pinhão), castanhas (caju, pará, amêndoas, nozes, coco) e sementes oleaginosas (semente de abóbora, chia, semente de girassol, linhaça, gergelim), vegetais escuros (agrião, rúcula, escarola, couve, almeirão, catalonha, taioba, brócolis, alface roxa), ervas (salsinha, manjericão, coentro) e frutas como o açaí, o damasco seco e as uvas passas.

Contudo, nos vegetais o ferro encontra-se na forma não-heme, que sofre interferência negativa de alguns componentes da dieta (ex. compostos fenólicos no café, chá mate, preto e verde, cálcio em excesso, fitatos, oxalatos), e positiva de outros (ex. vitamina C, ácidos cítrico, betacaroteno).

Consumir alimentos ricos em vitamina C (vegetais crus e frutas cítricas) nas refeições principais pode potencializar em 2 a 3x a absorção de ferro não-heme.

Ninguém precisa comer carne se não quiser. Isso é uma decisão pessoal e deve ser respeitada por todos os profissionais da saúde.

Em que condições a alimentação não é suficiente para manter bons níveis de ferro?

Crianças a partir dos 3 meses e até os 2 anos, gestantes e mulheres até o terceiro mês após o parto devem receber suplementação diária de ferro, independente da dieta que adotam. Essas são recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria e do Ministério da Saúde. Isso porque nessa fase as demandas de ferro são aumentadas e, a ingestão de ferro via dieta pode não ser suficiente.

Além disso, mulheres com fluxo menstrual muito intenso e pessoas que passaram por cirurgia bariátrica disabsortiva também podem precisar de um suporte de ferro, independente da dieta adotada. Isso porque ou as perdas de ferro podem estar aumentadas, pelo sangue menstrual, ou pelas fezes.

E claro, em condições em que a pessoa não consome uma ampla variedade de leguminosas, cereais integrais, oleaginosas, verduras verde escuras também podem estar com a ingestão de ferro diária comprometida. Nesses casos é possível considerar uma suplementação de apoio também.

Orientações práticas para seguir uma alimentação sem carne e prevenir a deficiência de ferro ou anemia:

  1. Consumir diariamente leguminosas, cereais integrais, oleaginosas e vegetais escuros nas refeições principais (almoço e jantar).
  2. Incluir vegetais crus ou frutas rica em vitamina C como sobremesa para potencializar a absorção do ferro de origem vegetal.
  3. Deixar as leguminosas de molho (todas!) por pelo menos 12 horas, descartar a água e cozinhar em água nova. Esse processo reduz os fitatos que prejudicam a absorção do ferro.
  4. Evitar consumir café, chá verde, chá preto, chá mate, cacau, laticínios ou bebidas enriquecidas com cálcio e vegetais ricos em oxalatos (espinafre, beterraba) diariamente no almoço e jantar. Esses alimentos podem reduzir a absorção do ferro e devem ser consumidos preferencialmente nos intervalos das refeições principais.
  5. Consulte seu médico ou nutricionista regularmente para monitorar seus exames bioquímicos.

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Um abraço!

Natália Utikava
Nutricionista
CRN 40.387

contato@nataliautikava.com.br